Os erros mais caros na hora de receber capital ou um novo sócio

Aquela proposta de investimento chega na sua mesa. O número está lá, no topo da página, grande e redondo. Você fica hipnotizado por aquele valuation, daquele cheque que vai fazer sua empresa crescer. Três semanas depois, quando tudo já foi assinado, você descobre que a realidade era bem diferente do que leu naquele termsheet.

Nos últimos 16 anos vendo empresários negociarem entrada de sócios e rodadas de investimento, aprendi que existe um padrão nos erros que custam mais caro. Não é que o fundador seja ingênuo — é que durante a negociação, a visão fica entupida. O número maior ofusca tudo o resto. Vou contar os oito problemas que mais destroem valor nesta hora, e o que você precisa fazer para não ser mais um.

O termsheet que você lê errado (ou não lê)

Aquele documento chega bonito, profesional. Valuation top. Mas ali dentro tem cláusula que vale mais do que você imagina: liquidation preference 2x, drag-along sem piso de proteção, anti-diluição full ratchet, board com poder de veto sobre decisões operacionais. Tudo passa. Tudo.

Aí chega o momento da saída. A empresa vende por R$ 20 milhões. Você pensa que vai receber proporcional aos seus %. Errado. Aquele investidor que entrou com 10% por R$ 2 milhões agora tem direito a receber 2x aquele valor — R$ 4 milhões — antes de qualquer outro acionista tocar em um centavo. Você, que ainda segura 40% da empresa, espera receber R$ 8 milhões. Recebe R$ 2 milhões.

A cifra hipnotiza. O termsheet é onde a matemática real — e cruel — fica escrita. Cláusulas de liquidation preference, anti-diluição, drag-along, put/call — cada uma delas muda quanto você efetivamente vai receber quando sair. Se você está negociando investimento sem alguém do seu lado destrinchando cada linha, está sozinho.

A bagunça documental que aparece na due diligence

Existe um sócio que saiu dois anos atrás e nunca formalizou buy-back. Existe um anjo que entrou cedo — aquele que colocou R$ 50 mil em troca de 5% — mas nunca assinou nada de verdade. Existe um ex-funcionário que recebeu aquela promessa de equity “assim que a empresa crescer”. Acordos de bar. De WhatsApp. De confiança mesmo.

Tudo fica invisível até o investidor chegar na due diligence e abrir a cap table. Daí vem o susto: existem “direitos” flutuando que ninguém documentou. O que era confiança vira risco. O investigador do fundo desconta tudo do valuation — 10% a 20% de redução é número comum quando a cap table tem fantasmas — ou bloqueia o deal até resolver.

Junto com isso vem a história dos ativos. A marca está registrada no CPF do fundador, não da empresa. O código-fonte nunca foi formalmente cedido — foi “desenvolvido para” a empresa, mas ainda é intelectualmente propriedade do desenvolvedor. A patente está em nome do inventor, não da pessoa jurídica. Contratos críticos com cliente? Assinados pelo fundador, não pela empresa. O investidor olha para isso tudo e pergunta: de quem é mesmo este negócio? E desconta.

Passivos trabalhistas são a outra bomba neste bloco. PJ que trabalha como funcionário. Terceirização disfarçada. Comissões estruturadas de forma que cheira a vínculo de emprego. Ex-funcionário que tem ação na Justiça e ninguém contou para ninguém. Sócios que recebem “pro labore” de forma incompatível com o regime tributário da empresa. Tudo vira exposição de risco. O investidor calcula o pior cenário — e desconta do preço.

A estrutura de sociedade que não cresceu com você

Você e o seu cofundador escreveram um acordo de sócios no dia um. Dois caras, duas cervejas, um documento de 5 páginas. Funcionou bem para os primeiros 3 anos. Depois entrou o terceiro sócio, um executivo com expertise importante. Ninguém atualizou o acordo. Depois o investidor chegou e quis assento no conselho. Ninguém mexeu no documento antigo.

Agora o acordo está congelado no tempo, mas a realidade é outra. Quem decide que a empresa entra em uma nova linha? Unanimidade, que está no acordo antigo? Maioria simples? Supermaioria? Como você protege o acionista minoritário quando alguém quer sair? Como precifica a saída? O que acontece se um sócio morrer? O investidor novo quer ter poder de veto sobre decisões operacionais — como isso cabe dentro de um documento que não foi reformulado?

A maioria das empresas não faz nada disso. O acordo vira ficção. Cada conflito é resolvido em reunião de emergência, sem regras claras. E quando chega hora de negociar entrada de investidor, você está negociando não só o termo do investimento, mas também descobrindo — no meio do processo — que sua própria estrutura interna não funciona.

Um outro erro relacionado: você traz um cofundador novo, um executivo que vai virar sócio, ou aquele sócio estratégico que entra com expertise mas sem investimento. Entra com X%. Depois de três meses — quando você descobre que a pessoa não é o fit certo, ou que abandonou o barco — ainda tem X%. Saiu, mas deixou a participação distribuída de forma errada. Você perde a pessoa E fica com a estrutura acionária quebrada. O vesting com cliff resolve isso: a pessoa só consolida a participação conforme o tempo passa e conforme cumpre milestones. Sai antes? Perde o que não consolidou.

O lado errado da mesa

Chega aquele termo de investimento bonito. O fundador pensa em economizar com advogado — usa o advogado do investidor “para não burocratizar”, ou contrata um advogado generalista que nunca negociou rodada de investimento. O advogado do investidor, claro, está lá para proteger os interesses do investidor.

Resultado: ninguém negocia as cláusulas que protegem o founder. O termsheet vem do investidor e volta praticamente inalterado. Liquidation preference? Aceito. Anti-diluição? Aceito. Direito de veto sobre decisões operacionais? Aceito. Sua parte no board vai ser minoritária? Claro, o investidor tem direito. Representação no conselho? O investidor manda.

Você precisa estar acompanhado de alguém cuja comissão depende do quanto o seu lado consegue extrair desta negociação — é assim que funciona. Um advogado seu, experiente em rodadas de investimento, é a diferença entre receber exatamente o que merecia receber e descobrir, meses depois, que vendeu bem menos do que parecia.


Esses oito erros aparecem juntos, no mesmo deal. Enquanto você está hipnotizado pelo valuation lá em cima da página, a bagunça documental mina sua posição na due diligence. Enquanto resolve a cap table, descobre que o acordo de sócios está desatualizado. Enquanto tudo isso acontece, ninguém está defendendo seu lado da mesa.

A entrada de investimento e a chegada de sócios são eventos que mudam a empresa. Precisam ser tratados como tal. Não é economia de custos com advogado — é investimento na quantidade que você vai efetivamente receber quando tudo acabar.

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Falar com Douglas Figueredo
DF

Douglas Figueredo

Advogado empresarial, mestre em Direito, especialista em Direito Tributário pelo CEAJUFE e em Gestão de Negócios e Finanças pela Fundação Dom Cabral. Sócio da DF Advocacia, em Belo Horizonte.